quarta-feira, dezembro 16, 2020

Feliz Natal Novo


FELIZ NATAL NOVO

*Gilmar Cardoso

De autoria do ilustre ex-senador gaúcho Pedro Simon (1979 a 1987 e de 1991 a 2015),considerado um dos melhores oradores do Senado. Ético, trabalhador, responsável, um político com passado limpo.

Advogado e professor universitário, estreou na política em 1954 em sua cidade natal, elegendo-se vereador pelo PTB. Foi deputado estadual durante 16 anos. Como governador do Rio Grande do Sul (1987-90), implantou eleição direta para diretores de escolas, construiu estradas e patrocinou a compra de terras pelo Estado para implantar a reforma agrária. Devoto de São Francisco de Assis, fez voto de pobreza pela fé franciscana. Da sua lavra, divido com você, estimado leitor desse diário, a inclusa reflexão:

"Há um choro novo". Esta expressão significa, principalmente no mais interior do país, o nascimento de uma criança. Não se conhece outro exemplo de sons, aparentemente tão contraditórios, constituírem-se no mais afinado coral: o choro tão esperado junta-se, como que em uma melodia, aos sorrisos incontidos da família. Tudo é festa. Não importa se há, naquele mesmo momento, do outro lado da rua, a partida de alguém muito próximo. Afinal, "são retratos da vida", que se estampam em natais, paixões, mortes e ressurreições.

Mas, neste momento, há um choronovono ar. Há que se procurar, ao redor de cada um, o que o motiva. Se a alegria da chegada ou se a dor da despedida. Há, certamente, ao redor de cada um, natais, paixões, mortes e ressurreições.

Mas, hoje é natal. E as cascatas de luzes enchem os olhos. E a mesa farta enche os estômagos. Entretanto, não são todos os olhos que brilham e, para milhões de estômagos, não é natal. É tempo de paixão e morte. Como que em um único retrato, em branco e preto.

O clima do natal é contagiante. Pelo menos na imaginação, o nosso desejo é o de abraçar o mundo. De repente, parece que o melhor presente é estar presente, é viver. Mas, se a vida é, para nós, o melhor presente, por que não a envolvemos nos nossos mais belos laços e não doamos um pouco dela para quem, dela, pouco, ou nada, tem?

É natal e Jesus nasceu, de novo. Mas, milhares de crianças que, como Ele, vieram ao mundo no outro natal, não estão comemorando, hoje, o primeiro aniversário. Porque Herodes ordenou que fossem mortas todas as crianças menores de dois anos. Herodes que apresenta, hoje, a sua nova face, travestida na fome e na miséria. Tudo isto, também, bem próximo dos atuais Pôncios Pilatos, que insistem em continuar a lavar as mãos.

Quem sabe o próximo natal seja diferente. Porque este está sendo igual aos anteriores. Pelo menos para os milhões de brasileiros, irmãos ao alcance do nosso abraço natalino, mas que não compareceram a nossa mesa, que não brindaram conosco, que continuam a ser os nossos verdadeiros "amigos ocultos". Quem sabe o próximo natal, hoje cantado em todos os versos, em todas as prosas e em todas as línguas, seja saudado, no Brasil, em todos os sotaques. Porque, neste natal, ainda somos a maior disparidade regional e pessoal de renda do mundo.

O próximo natal há que ser melhor que este. Para isto, hoje e todos os próximos dias, têm que ser vésperas de natal. Há que se preparar uma grande festa. Há que se plantar o arroz, o feijão, o milho, a mandioca, as frutas. Para isto, há que se ter terra. Há que se tecer a toalha e a roupa, há que se armar a mesa e há que se construir o abrigo. Para isto, há que se ter trabalho e salário. Há que se ter escolas, hospitais e creches. Para tudo isto, há que se ter vontade e decisão política.

Ainda bem que, logo após cada natal, há um ano novo. E que, ainda para muitos, cada dia doanonovoserá, sempre, como que noite de natal. A estes, como dizia o poeta, a bênção. A bênção todos os que se doam aos que nada têm além da esperança. A bênção homens públicos que não seguem o exemplo de Pilatos, mas que procuram manter as mãos limpas. A bênção a imprensalivree democrática e sua busca incessante da verdade. A bênção a todos os cidadãos, anônimos, nos andaimes da construção e no sol a sol do roçado. A bênção, enfim, todos os que sonham com um país mais digno e que, ainda, mantêm a capacidade de indignar-se.

Hoje é natal. E amanhã, também. Ao mesmo tempo em que festejo o dia de hoje, preparo melhor o dia de amanhã. Porque hoje, também, é véspera. É o dia anterior àquele que, espero, seja de mesa farta e, principalmente, ampla. O tempo é de choronovo. Se de alegria, compartilhada. Se de tristeza, solidária. Que a mesa seja, portanto, de comunhão e os novos tempos, de ressurreição!

* Gilmar Cardoso, advogado, poeta, membro do Centro de Letras do Paraná e da Academia Mourãoense de Letras

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