sexta-feira, fevereiro 10, 2017

Assista o vídeo da HISTÓRIA dos ÍNDIOS do Reserva dos Rio das Cobras , a trajetória de luta do CACIQUE ÂNGELO CRETÃ

                 
Líder indígena de Mangueirinha, Sudoeste do Paraná, Cretã, em 38 anos de vida lutou pelo resgate de identidade da tribo Kaingang, foi o primeiro vereador representante dos índios no Brasil, combateu atuação das madeireiras, abriu espaço para prática de uma agricultura com o uso de tecnologias, preservou a floresta e reconquistou terras. Foi “supostamente assassinado” em 1980.


A 10 quilômetros de Mangueirinha-Pr (local onde os tropeiros descansavam os animais nos tempos da tropeadas), o viajante se encanta com uma densa floresta de pinheiros. São aproximadamente 150 mil árvores centenárias – símbolo do Paraná -, preservadas. As araucárias estão concentradas (com algumas clareiras) numa área de 17 mil hectares No espaço que engloba também os municípios de Coronel Vivida e Chopinzinho habitam em torno de 2.000 índios Kaingang, com a terra demarcada oficialmente em 1903.
Ao longo dos anos os Kaingang foram perdendo terras, principalmente na década de 1950, durante o governo de Moisés Lupion, que negociou cerca de nove mil hectares em favor de madeireiras, entre elas, a Slaviero.

Para recuperar o espaço físico e cultural surge a maior liderança indígena do Sul do Brasil, o cacique Ângelo Cretã (1942-1980). O Cacique passa a vigiar e denunciar desmandos de funcionários da FUNAI, apreende dirigir trator e começa o processo do uso de equipamentos agrícolas nas roças. Exige, para os índios, moradias dignas, “casas como dos brancos”. E com ele no comando da aldeia “os trapos de gente viraram gente de verdade”, diz a filha e professora Eloy Aparecida Cretã, 44 anos. Cretã também aumenta o tempo de permanência das crianças na escola, até então limitado a 4ª série. Aciona a justiça para recuperação das terras “tomadas”, ação, hoje, já sacramentada com a área de 17 mil hectares. Entra na política. Em 1976, pelo MDB é eleito vereador com 170 votos, o primeiro índio eleito do Brasil. Tem atuação forte e destacada no legislativo de Mangueirinha, na 8ª legislatura, do município fundado em 1946 e que hoje conta com uma população de 18 mil habitantes.

Morte e comoção


Nos últimos anos de vida Cretã andava escoltado por policiais devido as constantes ameaças de morte dirigidas por latifundiários. Noticiaram os jornais que o Cacique estava dirigindo seu fusquinha vermelho com destino à cidade de Chopinzinho, quando ocorreu um acidente automobilístico – tinha um caminhão parado na pista e no desvio chocou-se com outro veículo -, para os índios, “uma emboscada”, que o deixou gravemente ferido, e após alguns dias no hospital veio a falecer em 29 de janeiro de 1980. A notícia se espalhou rapidamente. Até o Jornal Nacional abriu chamada principal. Jornalistas de todas as partes do Brasil fizeram reportagens. Cerca de 1.500 índios compareceram ao enterro, além de religiosos e autoridades.

Choro e discursos inflamados não faltaram. Ao lodo do caixão, um índio, aos prantos disse: “Vamos morrer peleando por esta terra. Enquanto tiver um Kaingang nós vamos resistir e vamos pelear por esta terra porque ela é nossa”. Muitos repetiram as palavras de Cretã no filme Terra de Índio. “Os pinheiros de Mangueirinha não são nossos, são de nossos filhos e netos”. E mais: “Nós não vamos invadir terras, vamos ocupar o que é nosso”.

Depoimentos


Para pesquisadores, a filha do Cacique, Eloy Aparecida Cretã, professora da Escola Kokoj Ty Han Já (a conquista do beija-flor), tem uma visão fraternal do pai e dos Kaingang. “O pai era amigo, aconselhava, tinha um jeito carinhoso de corrigir quem agia erradamente. Eu amava muito ele. Quando vou ao cemitério eu sempre pergunto: Por que você nos deixou tão novo?”. Faz uma pausa. Enxuga as lágrimas e com uma voz suave continua. “Todo mês vem gente pesquisar sobre o Cretã, que significa O Espírito da Montanha. Agora, tem uma coisa que eu gostaria de dizer. Nós, os índios somos pessoas como as outras. Todo mundo erra, bebe um pouco, tem preguiça, reclama. Então, eu pergunto: Por que só os índios são chamados de preguiçosos, bêbados, vagabundos? Por que só nós levamos a fama? Isto tem que melhorar, essa discriminação machuca a gente, por isso, a gente aconselha muito na escola, que é bilíngue – português e Kaingang, para que as crianças façam o bem, e digam que são índios, com muito orgulho. Tenho certeza que a má fama está prestes acabar”, sonha.

TERRA INDÍGENA RIO DAS COBRAS. Aldeia Kaingang em Nova Laranjeiras - Pr - Ano 2017 (Foto: facebook )

Terra Indígena


Os índios de Mangueirinha são agrupados em sete aldeias: a Campina ou Sede, (onde está edificada uma escola, uma igreja católica, uma igreja evangélica, o cemitério, o posto de saúde, o ginásio de esportes o campo de futebol, o Centro Cultural Kaingang e o escritório da FUNAI), o Paiol Queimado; o Mato Branco; a Água Santa, a Linha Luís, o Paço Liso (antiga Fazenda) e a Palmeirinha do Iguaçu Todas estas aldeias localizam-se numa área de divisa entre os municípios de Mangueirinha, Coronel Vivida e Chopinzinho no Sudoeste paranaense. Nesta Terra Indígena que fica no terceiro planalto da bacia hidrográfica do rio Iguaçu, encontra se a maior reserva natural de floresta de araucária angustifólia do mundo. Bioma característico da mata atlântica meridional rica em diversidade de fauna e flora, que há poucas décadas ainda predominava na paisagem da região Sul do Brasil. No Estado do Paraná restam preservadas menos de 3% das florestas nativas. Trágica estatística resultante de modelo desenvolvimentista conservador que desconsiderou impactos ambientais e favoreceu a concentração de terras.

Vídeo:GLOBO REPÓRTER 1980. Produção de Valêncio Xavier - Narração Marcos Hummel - Imagens Carlos Cardoso - Texto e edição de Carlos Coutinho - Série Documentos Paranaenses.

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